quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

2000...inove!




Inovemos, pois, a VIDA...

Quando se vê, já são seis horas!
Quando se vê, já é sexta-feira...
Quando se vê, já terminou o ano...
Quando se vê, passaram-se 50 anos!

Agora é tarde demais para ser reprovado...
Se me fosse dado, um dia, outra oportunidade,
eu nem olhava o relógio.
Seguiria em frente e iria jogando, pelo
caminho, a casca dourada e inútil das horas...
Dessa forma eu digo:

Não deixe de fazer algo que gosta devido à falta
de tempo, a única falta que terá,
será desse tempo que infelizmente não voltará mais.

(Mario Quintana)


Feliz 2009 a todos os que me querem bem, e aos que não querem também.

Imagem: Detalhe - Parque das Águas.

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Para 2009...Amor pra recomeçar

Eu te desejo
Não parar tão cedo
Pois toda idade tem
Prazer e medo...

E com os que erram
Feio e bastante
Que você consiga
Ser tolerante...

Quando você ficar triste
Que seja por um dia
E não o ano inteiro
E que você descubra
Que rir é bom
Mas que rir de tudo
É desespero...

Desejo!
Que você tenha a quem amar
E quando estiver bem cansado
Ainda, exista amor
Prá recomeçar
Prá recomeçar...

Eu te desejo muitos amigos
Mas que em um
Você possa confiar
E que tenha até
Inimigos
Prá você não deixar
De duvidar...

Quando você ficar triste
Que seja por um dia
E não o ano inteiro
E que você descubra
Que rir é bom
Mas que rir de tudo
É desespero...

Desejo!
Que você tenha a quem amar
E quando estiver bem cansado
Ainda, exista amor
Prá recomeçar
Prá recomeçar...


Eu desejo!
Que você ganhe dinheiro
Pois é preciso
Viver também
E que você diga a ele
Pelo menos uma vez
Quem é mesmo
O dono de quem...

Desejo!
Que você tenha a quem amar
E quando estiver bem cansado
Ainda, exista amor
Prá recomeçar...

Eu desejo!
Que você tenha a quem amar
E quando estiver bem cansado
Ainda, exista amor
Prá recomeçar
Prá recomeçar
Prá recomeçar...

Composição:Frejat, Mauricio Barros,Mauro Sta. Cecília

sábado, 27 de dezembro de 2008

Improviso do Amor-Perfeito


Naquela nuvem, naquela,
mando-te meu pensamento:
que Deus se ocupe do vento.
Os sonhos foram sonhados e o padecimento aceito.
E onde estás, Amor-Perfeito?

Imensos jardins da insônia,
de um olhar de despedida
deram flor por toda a vida.
Ai de mim que sobrevivo
sem o coração no peito.
E onde estás, Amor-Perfeito?

Longe, longe,
atrás do oceano que nos meus se alteia
entre pálpebras de areia...
Longe, longe... Deus te guarde
sobre o seu lado direito,
como eu te guardava do outro,
noite e dia, Amor-Perfeito.


Cecília Meireles
Imagem: Parque das Águas - Campinas

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

...necessário, somente o necessário.


O nosso Natal foi passado em casa, as crianças e eu, dessa vez sem a presença de Leandro (pai) que mesmo sendo convidado insistentemente, resistiu pra vir e optou por ficar sozinho.
Na véspera usamos boa parte do dia para a compra de alguns presentes. Foi diferente. Sempre evitamos isso ao comprarmos os presentes com alguma antecedência. Percebemos que pode ser divertido. Fomos à pé ao Unimart e vimos as filas de carro que se formavam na entrada do estacionamento, entramos nas lojas cheias para comprar uma lembrancinha, enfrentamos filas pra pagar e pra sermos atendidos... nos divertimos com muito pouco mesmo.
Na volta, passamos ainda no Enxuto, para comprar os fios de ovos, tomamos um lanche no café e retornamos em tempo para que eu preparasse a ceia.
Por volta de 22:00h saímos para cumprimentar alguns amigos e familiares e retornamos à casa para a ceia.
O nosso Natal foi simbolizado como o Natal do essencial, dos enfeites na árvore à comida e aos presentes.
Antes da ceia, agradecemos ao alimento, à vida, à saúde e à presença, mesmo não estando diretamente conosco, de todos as pessoas que nos são queridas, sejam parentes ou amigos e que estão significativamente relacionadas conosco.
Já no dia de ontem, com o tempo chuvoso, o único compromisso foi com o ócio: acordar tarde, ficar de pijama a maior parte do tempo, comendo e dormindo, vendo tv, lendo, recordando situações da infância...
Hoje já não chove; o dia tem novo brilho e as expectativas se renovam, sob a luz do sol.

Tim, Tim!!

domingo, 21 de dezembro de 2008

...uma mãozinha

A Larissa está participando de um concurso (online) de anime; Seu desenho está concorrendo nessa página:
http://www.animemaniaco.com.br
Entre e dê seu voto, dando cliques, conforme os passos:
a) vote no melhor
b) 12 a 18 anos;
c) os mais recentes, escolha: os mais votados;
d) Passe o mouse sobre os desenhos até mostrar os dados:
Sessão Animax - Larissa dos Anjos - SP
e)clique sobre o desenho e vote.
f) entre no seu e-mail para validar o voto.
Obrigada!

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Demais de muitas


"...a cabeça da gente é uma só,
e as coisas que há e que estão para haver são demais de muitas, muito maiores
diferentes,
e a gente tem de necessitar de aumentar a cabeça,
para o total.”

Texto: Guimarães Rosa - “Grande Sertão: Veredas”

domingo, 14 de dezembro de 2008

Eu já não sei


Eu já não sei
Se fiz bem ou se fiz mal
Em pôr um ponto final
Na minha paixão ardente
Eu já não sei
Porque quem sofre de amor
A cantar sofre melhor
As mágoas que o peito sente

Quando te vejo e em sonhos sigo os teus passos
Sinto o desejo de me lançar nos teus braços
Tenho vontade de te dizer frente a frente
Quanta saudade há do teu amor ausente
Num louco anseio, lembrando o que já chorei
Se te amo ou se te odeio
Eu já não sei

Eu já não sei
Sorrir como então sorria
Quando em lindos sonhos via
A tua adorada imagem
Eu já não sei
Se deva ou não deva querer-te
Pois quero às vezes esquecer-te
Quero, mas não tenho coragem

(Domingos Gonçalves Costa / Carlos Rocha)

sábado, 13 de dezembro de 2008

O que é um ano...


O tempo não tem retorno,
vive na memória,
já não existe,
apenas acontece,
não se muda,
não se repete.
O tempo passa.
Passam as pessoas.
Coleccionam-se experiências,
experimentam-se vivências,
vive-se o tempo,
que apenas acontece,
que não tem retorno,
até ser passado.
(António Manuel Rodrigues)

Um ano. Para além do que revela o percurso de um extremo e outro na linearidade do calendário, tanto mais sentido teve o que foi circunscrito e se mostrou como o recheio desse intervalo fugidio.
Tempo simbólico. Tempo tecido. Tempo construção.

Tempo cronológico. Quando submetido aos diversos instrumentos cada vez mais precisos e que se desdobram em múltiplas e minúsculas unidades, mostra a ânsia que temos, por vezes, voraz,
em segurá-lo pelo pescoço e esganá-lo,
capturá-lo para controlá-lo,
e noutras, docemente,
tomá-lo pelas mãos e conduzí-lo,
ou simplesmente detê-lo...adiá-lo...
Tempo pseudo-dominado, que denuncia o rompimento da relação direta homem-mundo e descortina as cores culturais que nos legitimam a nomear a cada segundo do presente, à memória do passado e às expectativas de futuro, as sensações e sentimentos que desses tempos decorrem.
Nessa dimensão outra, excluídos do 'eterno-presente' nos desvinculamos definitivamente dos nossos antepassados (e da natureza) ao não vivermos o mundo como ele se apresenta.
Tempo tecido,
Tempo simbólico,
Tempo construção.
Imerso no mosaico de instrumentos, de símbolos e de sentidos, esse modesto blog completa hoje um ano.
Culturalmente, ainda bebê, foi se constituindo de nuances entre a robustez e a fragilidade das palavras. Palavras que também são marcos. Que constrangem, que delimitam, que inflam, que multiplicam e que nessa plasti-elasticidade, tecem territórios e definem mundos.
Palavras emprestadas, que passam de mão em mão, de boca em boca, de pensamento em pensamento...
É pela palavra que eu o homenageio, na sua meninice, através da poesia.

Formas de abençoar

Fique aqui mesmo,
morra antes de mim,
mas não vá para o mundo.
Repito: não vá para o mundo,
que o mundo tem gente, meu filho.

[...]Há uma mentira por aí chamada infância, você tem?
Mesmo sem a ter, vai pagar essa viagem que não fez.
[...]
No início, todos o perdoam, esperando que você cresça,
esperando que você cresça para nunca mais perdoá-lo.

(Alberto da Cunha Melo - poeta brasileiro)

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Como viver para sempre


"[...]...vive para sempre quem sabe que esse instante é tudo o que temos – nem mais nem menos que agora, e agora, e agora, e agora. Só vive para sempre quem é infinito por dentro, se expandindo nas pessoas de quem se gosta.
[...] Quem antevê com olhos de sonho e migra em passos de dança.
Quem cai em pirueta porque tem uma cama elástica no fundo do poço.
Quem faz amizades de cama-de-gato, enredando corações em linhas de pequenos grandes gestos. "
Parabéns às "Pedras Preciosas"

texto:http://volumetria.wordpress.com/2007/12/18/como-viver-para-sempre/
Imagem: Ballet Cristiana Packer - "Como viver para sempre" - 07 e 08 de Dezembro - Teatro do Centro de Convivência de Campinas.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Teoria e prática








"[...]duas formas se situam. Uma delas sobrepõe outra, mais geométrica. A forma maior fica por trás dessas duas: quatro planos, então, se desenrolam. Essa sobreposição de planos é incessante e num movimento circular brusco em direção ao plano superior da obra, sua profundidade se organiza. É uma profundidade abstrata iluminada por uma luz clara, sem foco específico..."
"[...]as estruturas estão permanentemente expostas, discutindo questões clássicas da escultura como movimento, tensão e equilíbrio. A física, a astronomia e a matemática orientam a prática do artista, revelando-se no arranjo espacial dos objetos e na ênfase dada aos campos vazios, entendidos como matéria. Com delicada precisão, objetos ordinários (bolinhas de gude, linhas, pesos de chumbo) se acoplam a materiais como madeira, aço, vidro, emprestando-lhes novos sentidos de caráter existencial."


http://www.carlosbevilacqua.com.br
http://www.girafamania.com.br/historia_arte/historia_arteabstrata.htm#Kandinsky

domingo, 23 de novembro de 2008

Era uma vez uma menina (presa) na fotografia...



“Nesta situação absurda, o personagem, um aluno dos primeiros anos do falecido ginásio, ficou paralisado no tempo e relata o que entreviu da história recente do país”, conta Bonassi, completando que esse menino “somos todos nós, os brasileiros nascidos na primeira metade dos anos 60, que aprendemos a nos acostumar e a acumular frustrações”. (Fernando Bonassi)

O espaço da escola sempre havia me fascinado e por um estranho desejo de permanecer a vida toda naquele não-lugar; Eu, desde criança, havia me apaixonado por todas as escolas por onde havia passado e a minha paixão pelo estudo me faria, finalmente, retornar, ingressando na PUCCAMP, no curso de Educação Artística. Já no segundo ano do curso, fui dar aulas em caráter excepcional, em uma escola da Rede Estadual, em Hortolândia. Mesmo sem ainda estar formada, ser professora era exatamente o que eu buscava e ser professora de artes me conferia um privilégio que poucos professores tinham: a preferência das crianças, desde os anos iniciais até a 8ª série. Mergulhava com as crianças e observava como cada uma correspondia às diferentes propostas: desenhos, teatro, música, dança, folclore. Buscava caminhos através de diversas formas de expressão para oportunizar a todos e a cada um para que se manifestassem em seus sentimentos, suas emoções, sobretudo àqueles que diziam que ‘não sabiam fazer’. Nos guardados ainda tenho desenhos, fotos, composições, colagens que são fragmentos desse percurso que traçamos juntos, os alunos e eu e que contam histórias que as palavras não traduzem, pela autenticidade, pela originalidade com que eram produzidos. Era isso - havia, pra mim, encontrado a fórmula do 'ser-professora' - evocar nas crianças suas manifestações genuínas, recusando qualquer forma de cópia.


Fragmento do relatório elaborado à FAPESP, 2008.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

O caminho do mar do Oriente


"O Tokaido (O Caminho do mar do Oriente) era a principal via terrestre do Japão feudal. Percorria cerca de 500 km entre a antiga capital imperial, Quioto e a verdadeira capital - Edo (Tóquio), capital militar dos Tokugawa.

As 53 estações (sem contar com a do início e do término), situadas ao longo do caminho, abrigavam não apenas as comitivas dos senhores feudais mas todo o tipo de viajantes, mercadores, peregrinos e camponeses. Viajar nesta estrada, tão concorrida, era uma aventura pelas surpresas, riscos e dificuldades e também pelas intempéries que particularmente no Inverno assolavam a região.

O caminho do Tokaido teria provavelmente caído no esquecimento, se não tivesse sido imortalizado pelos maiores mestres da arte da estampa japonesa."

Fonte:http://www.gulbenkian.pt/index.php?object=160&article_id=1092
Imagem:
http://www.geocities.com/Tokyo/Pagoda/1787/hiroshige.html

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Sem fantasia


Vem, meu menino vadio
Vem, sem mentir pra você
Vem, mas vem sem fantasia
Que da noite pro dia
Você não vai crescer

Vem, por favor não evites
Meu amor, meus convites
Minha dor, meus apelos
Vou te envolver nos cabelos
Vem perde-te em meus braços
Pelo amor de Deus

Vem que eu te quero fraco
Vem que eu te quero tolo
Vem que eu te quero todo meu

Ah, eu quero te dizer
Que o instante de te ver
Custou tanto penar
Não vou me arrepender
Só vim te convencer
Que eu vim pra não morrer

De tanto te esperar
Eu quero te contar
Das chuvas que apanhei
Das noites que varei
No escuro a te buscar
Eu quero te mostrar
As marcas que ganhei
Nas lutas contra o rei
Nas discussões com Deus
E agora que cheguei
Eu quero a recompensa
Eu quero a prenda imensa
Dos carinhos teus


Chico Buarque - para a peça 'Roda Viva'(1967)
Vídeo: Chico e Bethânia http://www.youtube.com/watch?v=vSY8xSrymnM
Imagem: Trinta cabeças - Gil Vicente

domingo, 16 de novembro de 2008

Vestíbulo




"Na cultura chinesa a pérola é muito poderosa: é considerada como "O Tear dos Deuses". A Pérola é dada aos jovens, solteiros chineses, para ajudá-los a encontrar sua alma-gêmea; Para as filhas jovens, quando elas chegam à adolescência, os pais as presenteiam porque a pérola simboliza a guarda da pureza.
A pérola também é utilizado como potencializador de força e energia."

Querida, confie em si mesma, mas não duvide das civilizações milenares e use uma pérola no dia de hoje.
Besos e boa sorte.

Mamy


Etimologia
lat. vestibùlum,i 'pórtico, alpendre, entrada; soleira; espaço entre a porta de entrada de uma casa e a rua; o entrar (num assunto), começo, intróito'.




Fontes:





sábado, 15 de novembro de 2008

se me comovesse o amor

Se me comovesse o amor como me comove
a morte dos que amei, eu viveria feliz. Observo
as figueiras, a sombra dos muros, o jasmineiro
em que ficou gravada a tua mão, e deixo o dia

caminhar por entre veredas, caminhos perto do rio.
Se me comovessem os teus passos entre os outros,
os que se perdem nas ruas, os que abandonam
a casa e seguem o seu destino, eu saberia reconhecer

o sinal que ninguém encontra, o medo que ninguém
comove. Vejo-te regressar do deserto, atravessar
os templos, iluminar as varandas, chegar tarde.

Por isso não me procures, não me encontres,
não me deixes, não me conheças. Dá-me apenas
o pão, a palavra, as coisas possíveis. De longe.

Francisco José Viegas
Vídeo - Ricardo A. Pereira: http://www.quasi.com.pt/product_info.php?products_id=51260

quinta-feira, 13 de novembro de 2008


Solidão anda de muda
Sei pra sempre te amarei
Procurei por essas curvas
Quem no Tororó deixei


Texto: Fragmento de 'Argila' de Carlinhos Brown
Imagem: Leve, contigo.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Escolha


Eu te amo como quem esquece tudo
diante de um beijo:
as inúmeras horas desbeijadas
os terríveis desabraços
os dolorosos desencaixes
que meu corpo sofreu longe do seu.
Elejo sempre o encontro
Ele é o ponto do crochê.
Penélope invertida
nada começo de novo
nada desmancho
nada volto

Fragmento de 'Escolha' - Elisa Lucinda
Imagem - "Pôr do sol na praia"- António Durães - disponível em:http://www.1000imagens.com/


domingo, 9 de novembro de 2008

Registro e poder


"[...]quando pensávamos que a realidade estava sob controlo, que ela muda de novo. Mudou da Idade Média para a Idade da Razão e agora está a mudar para a Idade da Mente. Na era do livro, o controlo da linguagem foi sempre privado, mas com os media electrónicos o controlo da linguagem torna-se público e oral. Com o advento da Internet temos o primeiro meio que é oral e escrito, privado e público, individual e colectivo ao mesmo tempo. A ligação entre a mente pública e a mente privada é feita através das redes abertas e conectadas do Planeta. A reacção entre o individual e o colectivo está a mudar, assim como as regras que governam associações de indivíduos.
O processamento da informação começa com a linguagem falada. A linguagem ainda é o mais poderoso código disponível e vai permanecer como o principal pelo menos no futuro previsível. Não é só um projecto tecnológico mas também um projecto biológico, de evolução.
A espécie (humana) tem florescido com ele, faz parte do cérebro e é uma parte fisiológica do corpo humano, algo que é muito profundo e misterioso. Tudo o que afecte o desenvolvimento e crescimento da linguagem, afecta também o crescimento e desenvolvimento da inteligência.
A evolução da inteligência humana acompanha a evolução não apenas da linguagem mas ainda das tecnologias que suportam e processam a linguagem. A primeira destas tecnologias é a escrita, embora se possa conceber que a origem da linguagem tenha estado na prática da associação de sons às actividades da sobrevivência diária, é a escrita que armazena estes sons para usos mais duradouros. Ao serem fixadas pela escrita, as práticas orais pertinentes e selectivas obtiveram a consistência e a fiabilidade que permitiram ao código linguístico adquirir a oportunidade de desenvolver-se para além do uso comum. Escrever dá a capacidade aos homens para arquivar, expandir e explorar a linguagem como um controlo simbólico e prático sobre a natureza. A escrita, que é sempre o âmago de elementos específicos da civilização, parece actuar como uma espécie de “amplificador da inteligência” e dá origem a explosões repentinas na aceleração cultural.
Os códigos alfabéticos são muito mais poderosos do que os silabários porque, em vez de analisarem as línguas faladas em termos de sílabas pronunciadas, levam esta análise ao nível dos fonemas individuais. Isto reduz o número de caracteres necessários para a representação das palavras ditas e também elimina as ambiguidades nas complexas contracções silábicas. Quanto mais simples e mais fiel o código, mais poderoso se torna ao garantir um controlo consciente sobre a linguagem."


KERCKHOVE, Derrick de (1997) A Pele da Cultura; Lisboa; Relógio D´Água
Imagem: A persistência da Memória - Salvador Dali, 1952-54 - The Salvador Dalí Museum (Reynolds Morse Colection), St Petersburg, Fl, USA.

sábado, 1 de novembro de 2008

Faz-me o favor...

Faz-me o favor de não dizer absolutamente nada!
Supor o que dirá
Tua boca velada
É ouvir-te já.

É ouvir-te melhor
Do que o dirias.
O que és nao vem à flor
Das caras e dos dias.

Tu és melhor , muito melhor!
Do que tu. Não digas nada. Sê
Alma do corpo nu
Que do espelho se vê.

Mário Cesariny

Dois Mundos


”Assim como a vida de Ângela, sua arte transita por dois mundos. Os vídeos, as instalações e as fotografias da artista falam da África onde nasceu [...], falam do continente que procura o seu caminho depois de séculos de colonização européia, numa trama que se confunde com a história particular de Ângela. Falam também da Europa e sua saga exploratória e suas relações com um continente então considerado selvagem.
A obra "La Maison Tropicale" ilustra bem a relação entre os tais dois mundos. A instalação, presente no pavilhão português da Bienal de Veneza de 2007, faz uma releitura de uma experiência da arquitetura moderna francesa, nos anos 1940 e 1950. O projeto do arquiteto Jean Prouvé buscava a casa ideal, com um design que fosse acessível, adequado e belo para as colônias francesas na África, uma opção considerada perfeita ao clima boa parte escaldante do continente. Foram planejadas duas mil unidades, mas apenas três foram instaladas, uma no Niger e duas no Congo. Para a os povos da África, a casa foi vista mais uma das imposições dos colonizadores brancos, como a língua e a religião vindas da Europa. A resistência cultural foi maior que a utopia.
Ângela revisitou a história e trouxe considerações sobre os processos de imposição e dialética cultural entre sociedades colonizadas e colonizadoras, discutindo também os paradigmas culturais que a África quer a si em tempos pós-coloniais.
Além de artista, Ângela é pesquisadora. Já lecionou na Universidade da Cidade do Cabo, onde se graduou em escultura, e foi professora convidada da Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa. Possui trabalhos em coleções como a da Fundação de Serralves, no Porto, e na Fundação Calouste Gulbenkian e no Museu do Chiado, ambos em Lisboa. Seu trabalho consta ainda do acervo da South African National Gallery e na The Johannesburg Gallery, na África do Sul.
Ângela expôs ainda em galerias como a do Centro Cultural do Belém e na Filomena Soares, em Lisboa. No Brasil, já expôs no Centro Cultural São Paulo e na Galeria do Catete, no Museu da República, no Rio de Janeiro. Esteve ainda na Espanha, Inglaterra, França, Canadá, Itália e seu país natal, Moçambique. "

domingo, 26 de outubro de 2008

Gosto raro


O melhor o tempo esconde,
longe, muito longe
Mas bem dentro aqui,
[...]

Pena de Pavão de Krishna,
maravilha,
vixe! Maria Mãe de Deus,
será que esses olhos são meus ?

Fragmentos: Trilhos Urbanos (Caetano Veloso)
Imagem: Pavão no Castelo de São Jorge

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

A outra...


Paz, eu quero paz
Já me cansei de ser a última a saber de ti
Se todo mundo sabe quem te faz chegar mais tarde
Eu já cansei de imaginar você com ela
Diz pra mim se vale a pena, amor
A gente ria tanto desses nossos desencontros
Mas você passou do ponto e agora eu já não sei mais...

Eu quero paz
Quero dançar com outro par pra variar, amor
Não dá mais pra fingir que ainda não vi
As cicatrizes que ela fez
Se desta vez ela é senhora deste amor
Pois vá embora, por favor
Que não demora pra essa dor... sangrar

Música: Marcelo Camelo

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Poliamor


Se esse amor
Ficar entre nós dois
Vai ser tão pobre amor
Vai se gastar...


Se eu te amo e tu me amas
Um amor a dois profana
O amor de todos os mortais
Porque quem gosta de maçã
Irá gostar de todas
Porque todas são iguais...


Se eu te amo e tu me amas
E outro vem quando tu chamas
Como poderei te condenar
Infinita tua beleza
Como podes ficar presa
Que nem santa num altar...


Quando eu te escolhi
Para morar junto de mim
Eu quis ser tua alma
Ter seu corpo, tudo enfim
Mas compreendi
Que além de dois existem mais...


Amor só dura em liberdade
O ciúme é só vaidade
Sofro, mas eu vou te libertar
O que é que eu quero
Se eu te privo
Do que eu mais venero
Que é a beleza de deitar...

Quando eu te escolhi
Para morar junto de mim
Eu quis ser tua alma
Ter seu corpo, tudo enfim
Mas compreendi
Que além de dois existem mais...

Amor só dura em liberdade
O ciúme é só vaidade
Sofro, mas eu vou te libertar
O que é que eu quero
Se eu te privo
Do que eu mais venero
Que é a beleza de deitar...


A maçã - Raul Seixas
Imagem: Maçãs - Pedro Seixo Rodrigues (http://olhares.aeiou.pt/macas/foto83488.html)

sábado, 11 de outubro de 2008

Trio de efeitos


Sempre fui bom
Nunca fui bad
Posso ser mau
Se eu quiser
Nada impede
Mas é um dom
Quase profético
Nasci assim sou assim
É genético

Nunca fui bom
Sempre fui médio
Nasci assim
Que fazer
Que remédio
Vou melhorar
É o que veremos
Sou todo assim
Mais ou menos

Sempre fui bom
Sempre fui médio
É o meu dom
E o meu tédio

Eu já sou má
Má espontânea
Oh nunca vi
Crueldade tamanha
Ódio mortal
Do fundo do peito
Não sei porque
Que eu nasci
Desse jeito

Eu sou tão bom
Tenho uns defeitos
Quero matar
O primeiro sujeito
Médio má bom
Um trio de efeitos
Juntos seremos eleitos
Sou o melhor
Sou a pior
Sou um medíocre perfeito
Quero sucesso
Quero fracasso
Sei que pra mim
Regular já é o máximo


Composição: José Miguel Wisnik e Luiz Tatit

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

O Africano


"Tudo isso tão distante, tão próximo. Uma simples divisória, fina como um espelho, separa o mundo de ontem do meu mundo de hoje. Não falo de nostalgia. Tal impressão de desamparo nunca me causou nenhum prazer. Falo de substância, de sensações, da parte mais lógica de minha vida. Alguma coisa me foi dada, alguma coisa me foi tomada de novo."

Trecho do livro "O africano", do escritor francês Jean-Marie Gustave Le Clézio, vencedor do prêmio Nobel. A obra foi lançada no Brasil pela editora Cosac Naify.

Imagem: Longe-Perto, por mim.


sábado, 4 de outubro de 2008

Então tá....



....combinado.
Então tá combinado, é quase nada

É tudo somente sexo e amizade.

Não tem nenhum engano nem mistério.

É tudo só brincadeira e verdade.

Podemos ver o mundo juntos,

Sermos dois e sermos muitos,

Nos sabermos sós sem estarmos sós.

Abrirmos a cabeça

Para que afinal floresça

O mais que humano em nós.


Então tá tudo dito e é tão bonito

E eu acredito num claro futuro

de música, ternura e aventura

Pro equilibrista em cima do muro.

Mas e se o amor pra nós chegar,

De nós, de algum lugar

Com todo o seu tenebroso esplendor?

Mas e se o amor já está,

se há muito tempo que chegou

E só nos enganou?

Então não fale nada, apague a estrada

Que seu caminhar já desenhou

Porque toda razão, toda palavra

Vale nada quando chega o amor...


(Caetano Veloso)
Imagem: ângulos, por mim.

terça-feira, 30 de setembro de 2008

Hai...


mostro o passaporte
minha sombra espera
depois da fronteira

George Swede
imagem:  "nós, na madeira" (por mim)

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Haikai



juntos na hera
mãe e filho tesouram
a primavera

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Mudar dói...

...não mudar, dói mais ainda.
(Oswaldo Montenegro)

Lilás


Amanhã
Outro dia
Lua sai
Ventania abraça
Uma nuvem que passa no ar
Beija
Brinca
E deixa passar
E no ar
De outro dia
Meu olhar

Surgia nas pontas
De estrelas perdidas no mar
Pra chover de emoção
Trovejar...
Raio se libertou
Clareou
Muito mais
Se encantou
Pela cor lilás
Prata na luz do amor
Céu azul
Eu quero ver
O pôr do sol
Lindo como ele só
E gente pra ver
E viajar
No seu mar
De raio.

Lilás, Djavan.
Imagem: Iris, por mim.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Fosse


Seria
pior
não
mais nem menos
indiferentemente mas tanto quanto

Stéphane Mallarmé, cujo verdadeiro nome era Étienne Mallarmé, (Paris, 18 de Março de 1842 - Valvins, 9 de Setembro de 1898) foi um poeta e crítico literário francês.
Imagem: Indiferente, mas nem tanto - por mim.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Lá vai Lisboa...

Palavras para uma cidade

 "Tempo houve em que Lisboa não tinha esse nome. Chamavam-lhe Olisipo quando os Romanos ali chegaram, Olissibona quando a tomaram os Mouros, que logo deram em dizer Aschbouna, talvez porque não soubessem pronunciar a bárbara palavra. Quando, em 1147, depois de um cerco de três meses, os Mouros foram vencidos, o nome da cidade não mudou logo na hora seguinte: se aquele que iria ser o nosso primeiro rei enviou à família uma carta a anunciar o feito, o mais provável é que tenha escrito ao alto Aschbouna, 24 de Outubro, ou Olissibona, mas nunca Lisboa. Quando começou Lisboa a ser Lisboa de facto e de direito? Pelo menos alguns anos tiveram de passar antes que o novo nome nascesse, tal como para que os conquistadores Galegos começassem a tornar-se Portugueses… Estas miudezas históricas interessam pouco, dir-se-á, mas a mim interessar-me-ia muito, não só saber, mas ver, no exacto sentido da palavra, como veio mudando Lisboa desde aqueles dias. Se o cinema já existisse então, se os velhos cronistas fossem operadores de câmara, se as mil e uma mudanças por que Lisboa passou ao longo dos séculos tivessem sido registadas, poderíamos ver essa Lisboa de oito séculos crescer e mover-se como um ser vivo, como aquelas flores que a televisão nos mostra, abrindo-se em poucos segundos, desde o botão ainda fechado ao esplendor final das formas e das cores. Creio que amaria a essa Lisboa por cima de todas as cousas. 

Fisicamente, habitamos um espaço, mas, sentimentalmente, somos habitados por uma memória. Memória que é a de um espaço e de um tempo, memória no interior da qual vivemos, como uma ilha entre dois mares: um que dizemos passado, outro que dizemos futuro. Podemos navegar no mar do passado próximo graças à memória pessoal que conservou a lembrança das suas rotas, mas para navegar no mar do passado remoto teremos de usar as memórias que o tempo acumulou, as memórias de um espaço continuamente transformado, tão fugidio como o próprio tempo. Esse filme de Lisboa, comprimindo o tempo e expandindo o espaço, seria a memória perfeita da cidade. 

O que sabemos dos lugares é coincidirmos com eles durante um certo tempo no espaço que são. O lugar estava ali, a pessoa apareceu, depois a pessoa partiu, o lugar continuou, o lugar tinha feito a pessoa, a pessoa havia transformado o lugar. 

 [...] o espírito de Lisboa sobrevive, e é o espírito que faz eternas as cidades. Arrebatado por aquele louco amor e aquele divino entusiasmo que moram nos poetas, Camões escreveu um dia, falando de Lisboa: “…cidade que facilmente das outras é princesa”. Perdoemos-lhe o exagero. Basta que Lisboa seja simplesmente o que deve ser: culta, moderna, limpa, organizada – sem perder nada da sua alma. E se todas estas bondades acabarem por fazer dela uma rainha, pois que o seja. Na república que nós somos serão sempre bem-vindas rainhas assim." 

Palavras para uma cidade - José Saramago  in http://www.josesaramago.org/Entrada_Fundacao.aspx;   (Filho e neto de camponeses, José Saramago nasceu na aldeia de Azinhaga, província do Ribatejo, no dia 16 de Novembro de 1922).  

Imagem: Lá vai Lisboa: por mim.

domingo, 21 de setembro de 2008

Primavera.



Pensar em Deus é desobedecer a Deus,
Porque Deus quis que o não conhecêssemos,
Por isso se nos não mostrou...


Sejamos simples e calmos,
Como os regatos e as árvores,

E Deus amar-nos-á fazendo de nós
Belos como as árvores e os regatos,
E dar-nos-á verdor na sua primavera,

E um rio aonde ir ter quando acabemos!...


Imagem: "Generoso, Gerânio" - por mim.
Ricardo Reis (1887 - 1935?): nasceu no Porto. Educado em colégio de jesuítas, é médico e vive no Brasil desde 1919, pois expatriou-se espontaneamente por ser monárquico. É latinista por educação alheia, e um semi-helenista por educação própria 

sábado, 20 de setembro de 2008

Suave é viver só.




Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.

A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-próprios.

Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.

Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.

Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.

Odes de Ricardo Reis
Imagem: Verdes texturas, por mim.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

À Carolina,


Querida, ao pé do leito derradeiro
Em que descansas dessa longa vida,
Aqui venho e virei, pobre querida,
Trazer-te o coração do companheiro.

Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro
Que, a despeito de toda a humana lida,
Fez a nossa existência apetecida
E num recanto pôs um mundo inteiro.

Trago-te flores, - restos arrancados
Da terra que nos viu passar unidos
E ora mortos nos deixa e separados.

Que eu, se tenho nos olhos malferidos
Pensamentos de vida formulados,
São pensamentos idos e vividos.

Machado de Assis - Joaquim Maria Machado de Assis, neto de escravos alforriados, pobre e epiléptico, nascido em 21 de junho de 1839, no morro do Livramento, Rio de Janeiro)
Imagem: Amarílis, por mim.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

e Tins...


[...] quem sofre
Sempre tem que procurar
Pelo menos vir achar
Razão para viver...

Ver na vida algum motivo
Prá sonhar
Ter um sonho todo azul
Azul da cor do mar...

(imagem: Ubatuba; música: Azul da cor do mar - Tima Maia)

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Bens...

Eu quero aproximar
O meu cantar vagabundo
Daqueles que velam
Pela alegria do mundo...

Indo mais fundo
Tins e bens e tais!
Indo mais fundo
Tins e bens e tais!


(Fragmento de 'Podres poderes' - Caetano Veloso; música: Ive Brussel de Jorge Benjor) 

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Anunciando a Primavera II.

eu
(é primavera)
te amo.









(imagem: uma certa flor; fragmento da música: Primavera de Tim Maia)

domingo, 7 de setembro de 2008

Ali estava o azul do mar...


“[...] uma coisa é engarrafar a água do mar; outra é engarrafar o azul das ondas. O que você quer do mar não é água salgada, quer o azul. Não dá pra botar numa garrafa. Você tem que levar a essência, o valor”.

Eu lia entrevista com Tião Rocha na Revista Caros Amigos, que o Guilherme gentilmente sugeriu e encontrei, nesse recorte, um outro sentido para o Festival Literário que realizamos no sábado, na escola. 

Era sábado após o almoço. Chegavam para o Festival aqueles que poderiam ser mães, avós, pais, irmãos menores, amigos ou vizinhos. Pessoas que raramente se vê, naquele momento percorriam espaços de um território protegido. Vinham, portanto, cautelosos e apreensivos. 
Cruzavam com as gentes da escola que, no corre-corre, tentavam finalizar a exposição dos trabalhos, deixando indefinida a fronteira entre o término de um e o início de outro. 
Momento efêmero de darmos vistas ao que temos feito juntos - adultos, crianças e jovens.
Dentre as obras selecionadas que se enfileiram pelo corredor em varais, umas desvelam através de parlendas, os primeiros passos da leitura inferida. 
Em pequenos textos, de quando a escrita já dá mostras de ser um ato de coragem, em que as primeiras letras desafiantes buscam um percurso criando o caminho no próprio caminhar, outros já demonstram repertório de escrita e de literatura;
Outros ainda, os textos coletivos, retrato solidário de quem viveu junto certas emoções e que se reuniu em roda pra recontá-las (porque têm muito o que dizer), são registros de episódios que ficarão na memória de um currículo muito maior, que não pertencerá à escola, mas à infância.
Nas paredes, desenhos e colagens; cartazes e painéis de diversos tamanhos e formas rompem com o branco-azul-igual de todo dia. 
Do teto descem móbiles de bois-bumbás, ímpares na expressão e acabamento, mesmo recobertos de mesma chita; 
Em contraste com as grades de ferro, a leveza das espirais dos boitatás mudam de cor ao vento e não oferecem medo, mas simpatia;
Do mesmo teto e ao mesmo vento, os grandes painéis se agitam e denunciam em sua vitalidade, a intimidade da adolescência com sua maneira própria de ver o mundo, revelando gostos, desgostos, prazeres e angústias nos textos e nos desenhos; 
São meninos e meninas tão iguais em jeitos e gestos, tão diferentes em suas histórias de vida, muitas vezes desconhecidas, por nós;
Ao sol escaldante do pós-almoço que ardia a quadra, optamos pelo grande salão, decorado com livros de literatura infantil. Cuidadosamente embalados, exibem-se frente-e-verso e bailam no ar provocativos tal qual iguaria, que apetece e atrai por ser desconhecida, prazerosa e inusitada. 
Abrimos com o Hino Nacional. 
Sem mastro, improvisamos um ponto na parede e instalamos a Bandeira (com todo respeito) e dois meninos se alternam pra mantê-la visível ao público enquanto cantamos. 
Postei-me na extrema diagonal do espaço reservado pra ser o ‘palco’. 
Com a visão privilegiada de todos os presentes eu vi olhos brilharem ao som das músicas e ao movimento das danças apresentadas pelas crianças e jovens. Era muito mais do que representar bem os movimentos e falas ou músicas ensaiadas;
Eram crianças e jovens vivendo e promovendo emoções; 
Eu vi risos e lágrimas. Orgulho. Emoção contagiante;
Eu vi corpos que se movimentavam, querendo sair de si; 
Eu vi os flashes das máquinas tentando capturar momentos fortuitos. 
Eu vi...E me emocionei.
Não sei quantos eram, daqui ou de lá, quem era palco, quem era platéia...
Seguramente, pra esses sujeitos, esse projeto de escola teve sentido. 
Quem veio, quem viu, provou, não apenas a água salgada, mas pode levar nos olhos o verdadeiro azul do mar.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

(Não) Somos todos escritores...


“É um drama comum a todo e qualquer escritor este sentimento de que estamos vivendo, sim, mas essa vida se destina somente a acumular experiências para a obra literária. Já a quase totalidade das pessoas se limita a viver porque não dispõe de linguagem.

Trago um mistério inicial em minha biografia: por que logo eu, numa família de onze, revelou a vocação e o destino para a escrita, numa família que não tinha pendores literários?

Sempre tenho a impressão de que toda a vida de um escritor é estuário onde se acumula a matéria que se transformará em obra literária.

O escritor é, então, uma pessoa condenada não a viver, mas a escrever."

Lêdo Ivo.
Imagem: Saco da Ribeira, Ubatuba.

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Escrever é carregar água na peneira*




Prêmio Portugal Telecom de Literatura em Língua Portuguesa 2008

Parabéns à Portugal Telecom por mais esta ação de incentivo à escrita e parabéns aos brasileiros, portugueses, moçambicanos e angolanos, pelos 'despropósitos'.
Nossa língua...somos nós.


(* Do livro "Exercícios de Ser criança. Manoel de Barros/Imagem: logo da campanha disponível em: http://www.premioportugaltelecom.com.br/2008/index.asp)


domingo, 31 de agosto de 2008

Anunciando a Primavera


As nuvens douradas
Flutuam no pantanal
- florada de ipê
(Goga Masuda)

(imagem: Ipê da minha rua - foto de hoje, 31.08.2008 7:00h)

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

E se nós....


Todos somos escritores.

pensamento fugaz
olhar seletivo, elege
memória se faz


Uns escrevem:

mãos, pés e bocas
lápis, canetas, pincéis
história se fez

Outros não:

silêncios sem nome
vozes mudas, telas vazias,
quem são?

E se...

a escrita sêmen
livro, dança, tela, barro
leitores que lêem

nós...

a seu jeito
história traçada, memória lembrada
sujeito.

(Jogo de palavras, elaborado por mim, a partir de: "Todos somos escritores, uns escrevem, outros não." de José Saramago)
Imagem: Angelus Novus - Paul Klee (1932)

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Aurora sem dia...

Quem és tu que me atormentas
Com teus prazenteiros sorrisos?
Quem és tu que me apontas
As portas dos paraísos?

Imagem do céu és tu?
És filha da divindade?
Ou vens prender em teus cabelos
A minha liberdade?

(Obra Completa, de Machado de Assis, vol. II,
Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1994.)

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Sentimento do mundo.


Não, meu coração não é maior que o mundo.
É muito menor.
Nele não cabem nem as minhas dores.
Por isso gosto de me contar.
Por isso, me dispo,
Por isso me grito,
por isso freqüento os jornais, me exponho cruamente nas livrarias:
preciso de todos.
(Carlos Drumond de Andrade)
(O grito - Edward Munch)

sábado, 23 de agosto de 2008

...lembra?


lembra o tempo
que você sentia
e sentir
era a forma mais sábia
de saber
e você nem sabia?


Alice Ruiz.
Imagem: Cícero Dias

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Esculpir o tempo


... [...] a liberdade não pode ser uma coisa gratuita, como a água de uma fonte, que não custa um centavo e não exige de ninguém qualquer esforço moral; se é assim que o homem vê as coisas, ele jamais poderá usar as vantagens oferecidas pela liberdade para mudar sua vida para melhor. A liberdade não é uma coisa que se possa incorporar de uma vez por toda à vida de um homem: deve ser constantemente conquistada através de um esforço moral. Em relação ao mundo exterior, o homem não desfruta, essencialmente, de liberdade alguma, pois não está sozinho; a liberdade interior, porém, é algo que ele já tem desde o início, desde que tenha a coragem e a determinação de usá-la, aceitando o fato de que sua experiência interior tem importância social. (pág. 283)
In "Esculpir o tempo", tradução de Jefferson Luiz Camargo, Livraria Martins Fontes Editora Ltda., São Paulo, 2002.
Foto: Teia (Riacho Grande)

segunda-feira, 18 de agosto de 2008


casca oca
a cigarra
cantou-se toda
(M. Bashô)

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

É só (re) começar...

ninguém precisa
ter talento
p'ra transformar
caso em descaso

já o contrário
é que é o caso
se você não tem, lamento
é preciso ser forte
é preciso ser fraco
é preciso ganhar
e perder o juízo

sai dessa pose
pára de pensar no prejuízo
e segue em frente
tem hora p'ra chegar
tem hora p'ra se afastar
não sabe como?
é só começar

(Alice Ruiz)
Foto: Parque em Barão Geraldo

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Eu não escrevo Hai-Kai


Noite enorme
Tudo dorme
Menos teu nome.
(Paulo Leminski)

"Haikai não é síntese, no sentido de dizer o máximo com o mínimo de palavras. É antes a arte de, com o mínimo, obter o suficiente". (Paulo Franchetti)
Foto: Saco da Ribeira, Ubatuba

quarta-feira, 6 de agosto de 2008


A rosa de Hiroxima


Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas, oh, não se esqueçam
Da rosa, da rosa
Da rosa de Hiroxima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A anti-rosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada.

Vinícius de Moraes

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Aqui...

Aqui, deposta enfim a minha imagem,
Tudo o que é jogo e tudo o que é passagem,
No interior das coisas canto nua.

Aqui livre sou eu - eco da lua
E dos jardins, os gestos recebidos
E o tumulto dos gestos pressentidos,
Aqui sou eu em tudo quanto amei.

Não por aquilo que só atravessei,
Não pelo meu rumor que só perdi,
Não pelos incertos atos que vivi,

Mas por tudo de quanto ressoei
E em cujo amor de amor me eternizei.

(Sophia de Mello Breyner Andresen)