terça-feira, 12 de fevereiro de 2008
Tão grande dor
«Sândalo flor búfalo montanha
Cantos danças ritos
E a pureza dos gestos ancestrais»
Em frente ao pasmo atento das crianças
Assim contava o poeta Ruy Cinatti
Sentado no chão
Naquela noite em que voltara da viagem
Timor
Dever que não foi cumprido e que por isso dói
Depois vieram notícias desgarradas
Raras e confusas
Violência mortes crueldade
E ano após ano
Ia crescendo sempre a atrocidade
E dia a dia - espanto prodígio assombro -
Cresceu a valentia
Do povo e da guerrilha
Evanescente nas brumas da montanha
Timor cercado por um muro de silêncio
Mais pesado e mais espesso do que o muro
De Berlim que foi sempre tão falado
Porque não era um muro mas um cerco
Que por segundo cerco era cercado
O cerco da surdez dos consumistas
Tão cheios de jornais e de notícias
Mas como se fosse o milagre pedido
Pelo rio da prece ao som das balas
As imagens do massacre foram salvas
As imagens romperam os cercos do silêncio
Irromperam nos écrans e os surdos viram
A evidência nua das imagens.
(Sophia de Mello Breyner Andresen )
domingo, 10 de fevereiro de 2008
Arte para evocar II
Novo local de trabalho. Reuniões de organização e planejamento do ano letivo de 2008...(isso não tem nada de novo). Nas primeiras reuniões retomamos os temas avaliados no final de 2007. Dentre os seis princípios afirmados no Projeto Pedagógico, um deles se refere ao tema arte e é nele que pretendo me debruçar e elaborar uma reflexão mais aprofundada nos encontros semanais no primeiro trimestre: "Valorização da arte como forma de expressão". Um projeto de escola que se oriente por esse princípio, ou dentre outros que ele esteja contemplado, deverá ter alguns pressupostos. Assim, saber como cada um tem se posicionado até então em favor dessa discussão, da elaboração do próprio trabalho e do trabalho coletivo, penso que será um caminho para identificar e dar visibilidade aos pressupostos (algumas ações já foram elencadas no trabalho desenvolvido com teatro, tendo o aluno alternando papéis entre protagonista e platéia). Conhecer o que as pessoas pensam sobre o tema, me parece um bom ponto de partida para o desenvolvimento desse trabalho. Então fiz uma ponte com algo que li recentemente sobre 'arte para evocar'. O que poderia ser a arte para evocar? Evocar, do latim - evocare; Chamar (alguém) para fora do lugar onde está (Dic. Michaellis). O termo me provocou e gerou algumas inquietações. Dentro da perspectiva de que 'evocar' é chamar alguém para fora do lugar onde está, então deve ser muito bom servir-me da arte para esse fim. Evocar, portanto, pode ser um modo específico, um jeito singular de explorar, através da arte, o que o sujeito traz em si sobre o processo artístico/educacional para revelar a partir daí, como ele se pensa nesse processo e as possíveis transformação desse pensar, que é o caráter essencial da arte-educação.
A Varanda.
Tu, todo o meu prazer! Tu, todo o meu dever!
Hás de lembrar-te das carícias incessantes,
Da doçura do lar à luz do entardecer,
Mãe das recordações, amante das amantes!
As tardes à lareira, ao calor do carvão,
E as tardes na varanda, entre róseos matizes.
Quão doce era o seu seio e meigo coração!
Dissemo-nos os dois as coisas mais felizes
Nas tardes à lareira, ao calor do carvão!
Quão soberbo era o sol nas tardes douradas!
Que profundo era o espaço e como a alma era langue!
Curvado sobre ti, rainha das amadas,
Eu julgava aspirar o aroma de teu sangue.
Quão soberbo era o sol nessas tardes douradas!
A noite se adensava igual a uma clausura,
E no escuro os meus olhos viam-te as pupilas;
Teu hálito eu sorvia, ó veneno, ó doçura!
E dormiam teus pés em minhas mãos tranqüilas.
A noite se adensava igual a uma clausura.
Sei a arte de evocar as horas mais ditosas,
E revivo o passado imerso em teu regaço.
Para que procurar belezas voluptuosas
Se as encontro em teu corpo e em teu cálido abraço?
Sei a arte de evocar as horas mais ditosas.
Juras de amor, perfumes, beijos infinitos,
De um fundo abismo onde não chegam nossas sondas
Voltareis, como o sol retorna aos céus benditos
Depois de mergulhar nas mais profundas ondas?
- Juras de amor, perfumes, beijos infinitos!
(Charles Baudelaire)
quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008
Venho de Tempos Antigos

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008
Carnaval: saúde e direito, o profano e o sagrado.
domingo, 3 de fevereiro de 2008
Fim de semana.
Pelo fim de semana
morro de fome
pelo fim de semana
fome de sair
fome de te ver
fome de saltar
fome de te ter
fome de voar
Fome de cair
Fome de te amar
Para depois viver
(Xutos e Pontapés)
Adoro o fim de semana. É o oásis do 'vir-a-ser'.