sábado, 1 de novembro de 2008

Dois Mundos


”Assim como a vida de Ângela, sua arte transita por dois mundos. Os vídeos, as instalações e as fotografias da artista falam da África onde nasceu [...], falam do continente que procura o seu caminho depois de séculos de colonização européia, numa trama que se confunde com a história particular de Ângela. Falam também da Europa e sua saga exploratória e suas relações com um continente então considerado selvagem.
A obra "La Maison Tropicale" ilustra bem a relação entre os tais dois mundos. A instalação, presente no pavilhão português da Bienal de Veneza de 2007, faz uma releitura de uma experiência da arquitetura moderna francesa, nos anos 1940 e 1950. O projeto do arquiteto Jean Prouvé buscava a casa ideal, com um design que fosse acessível, adequado e belo para as colônias francesas na África, uma opção considerada perfeita ao clima boa parte escaldante do continente. Foram planejadas duas mil unidades, mas apenas três foram instaladas, uma no Niger e duas no Congo. Para a os povos da África, a casa foi vista mais uma das imposições dos colonizadores brancos, como a língua e a religião vindas da Europa. A resistência cultural foi maior que a utopia.
Ângela revisitou a história e trouxe considerações sobre os processos de imposição e dialética cultural entre sociedades colonizadas e colonizadoras, discutindo também os paradigmas culturais que a África quer a si em tempos pós-coloniais.
Além de artista, Ângela é pesquisadora. Já lecionou na Universidade da Cidade do Cabo, onde se graduou em escultura, e foi professora convidada da Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa. Possui trabalhos em coleções como a da Fundação de Serralves, no Porto, e na Fundação Calouste Gulbenkian e no Museu do Chiado, ambos em Lisboa. Seu trabalho consta ainda do acervo da South African National Gallery e na The Johannesburg Gallery, na África do Sul.
Ângela expôs ainda em galerias como a do Centro Cultural do Belém e na Filomena Soares, em Lisboa. No Brasil, já expôs no Centro Cultural São Paulo e na Galeria do Catete, no Museu da República, no Rio de Janeiro. Esteve ainda na Espanha, Inglaterra, França, Canadá, Itália e seu país natal, Moçambique. "

domingo, 26 de outubro de 2008

Gosto raro


O melhor o tempo esconde,
longe, muito longe
Mas bem dentro aqui,
[...]

Pena de Pavão de Krishna,
maravilha,
vixe! Maria Mãe de Deus,
será que esses olhos são meus ?

Fragmentos: Trilhos Urbanos (Caetano Veloso)
Imagem: Pavão no Castelo de São Jorge

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

A outra...


Paz, eu quero paz
Já me cansei de ser a última a saber de ti
Se todo mundo sabe quem te faz chegar mais tarde
Eu já cansei de imaginar você com ela
Diz pra mim se vale a pena, amor
A gente ria tanto desses nossos desencontros
Mas você passou do ponto e agora eu já não sei mais...

Eu quero paz
Quero dançar com outro par pra variar, amor
Não dá mais pra fingir que ainda não vi
As cicatrizes que ela fez
Se desta vez ela é senhora deste amor
Pois vá embora, por favor
Que não demora pra essa dor... sangrar

Música: Marcelo Camelo

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Poliamor


Se esse amor
Ficar entre nós dois
Vai ser tão pobre amor
Vai se gastar...


Se eu te amo e tu me amas
Um amor a dois profana
O amor de todos os mortais
Porque quem gosta de maçã
Irá gostar de todas
Porque todas são iguais...


Se eu te amo e tu me amas
E outro vem quando tu chamas
Como poderei te condenar
Infinita tua beleza
Como podes ficar presa
Que nem santa num altar...


Quando eu te escolhi
Para morar junto de mim
Eu quis ser tua alma
Ter seu corpo, tudo enfim
Mas compreendi
Que além de dois existem mais...


Amor só dura em liberdade
O ciúme é só vaidade
Sofro, mas eu vou te libertar
O que é que eu quero
Se eu te privo
Do que eu mais venero
Que é a beleza de deitar...

Quando eu te escolhi
Para morar junto de mim
Eu quis ser tua alma
Ter seu corpo, tudo enfim
Mas compreendi
Que além de dois existem mais...

Amor só dura em liberdade
O ciúme é só vaidade
Sofro, mas eu vou te libertar
O que é que eu quero
Se eu te privo
Do que eu mais venero
Que é a beleza de deitar...


A maçã - Raul Seixas
Imagem: Maçãs - Pedro Seixo Rodrigues (http://olhares.aeiou.pt/macas/foto83488.html)

sábado, 11 de outubro de 2008

Trio de efeitos


Sempre fui bom
Nunca fui bad
Posso ser mau
Se eu quiser
Nada impede
Mas é um dom
Quase profético
Nasci assim sou assim
É genético

Nunca fui bom
Sempre fui médio
Nasci assim
Que fazer
Que remédio
Vou melhorar
É o que veremos
Sou todo assim
Mais ou menos

Sempre fui bom
Sempre fui médio
É o meu dom
E o meu tédio

Eu já sou má
Má espontânea
Oh nunca vi
Crueldade tamanha
Ódio mortal
Do fundo do peito
Não sei porque
Que eu nasci
Desse jeito

Eu sou tão bom
Tenho uns defeitos
Quero matar
O primeiro sujeito
Médio má bom
Um trio de efeitos
Juntos seremos eleitos
Sou o melhor
Sou a pior
Sou um medíocre perfeito
Quero sucesso
Quero fracasso
Sei que pra mim
Regular já é o máximo


Composição: José Miguel Wisnik e Luiz Tatit

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

O Africano


"Tudo isso tão distante, tão próximo. Uma simples divisória, fina como um espelho, separa o mundo de ontem do meu mundo de hoje. Não falo de nostalgia. Tal impressão de desamparo nunca me causou nenhum prazer. Falo de substância, de sensações, da parte mais lógica de minha vida. Alguma coisa me foi dada, alguma coisa me foi tomada de novo."

Trecho do livro "O africano", do escritor francês Jean-Marie Gustave Le Clézio, vencedor do prêmio Nobel. A obra foi lançada no Brasil pela editora Cosac Naify.

Imagem: Longe-Perto, por mim.


sábado, 4 de outubro de 2008

Então tá....



....combinado.
Então tá combinado, é quase nada

É tudo somente sexo e amizade.

Não tem nenhum engano nem mistério.

É tudo só brincadeira e verdade.

Podemos ver o mundo juntos,

Sermos dois e sermos muitos,

Nos sabermos sós sem estarmos sós.

Abrirmos a cabeça

Para que afinal floresça

O mais que humano em nós.


Então tá tudo dito e é tão bonito

E eu acredito num claro futuro

de música, ternura e aventura

Pro equilibrista em cima do muro.

Mas e se o amor pra nós chegar,

De nós, de algum lugar

Com todo o seu tenebroso esplendor?

Mas e se o amor já está,

se há muito tempo que chegou

E só nos enganou?

Então não fale nada, apague a estrada

Que seu caminhar já desenhou

Porque toda razão, toda palavra

Vale nada quando chega o amor...


(Caetano Veloso)
Imagem: ângulos, por mim.