segunda-feira, 20 de abril de 2009

Kadiweu


"Também conhecidos como "índios cavaleiros", integrantes da única "horda" sobrevivente dos Mbayá, um ramo dos Guaikurú, guardam a lembrança de um glorioso passado.
Organizados numa sociedade que tinha num extremo os nobres e no outro os cativos, viveram do saque e do tributo sobre seus vizinhos, dos quais faziam depender sua própria reprodução biológica, uma vez que suas mulheres não geravam filhos ou permitiam a sobrevivência de apenas um, quando já estavam no final de seu período fértil. Estas mulheres dedicavam-se à pintura corporal e facial, cuja especial disposição dos elementos geométricos Lévi-Strauss considerou como característica das sociedades hierárquicas. Desenhos que impressionam pela riqueza de suas formas e detalhes.
No passado, as hordas Mbayá se dividiam em "tolderias". A tolderia, onde havia uma casa coletiva, era a menor unidade política e econômica, que reunia a parentela de um "capitão" e os seus cativos
[...]Os finos desenhos corporais realizados pelos Kadiwéu constituem-se em uma forma notável da expressão de sua arte. Hábeis desenhistas estampam rostos com desenhos minuciosos e simétricos, traçados com a tinta obtida da mistura de suco de jenipapo com pó de carvão, aplicada com uma fina lasca de madeira ou taquara. No passado, a pintura corporal marcava a diferença entre nobres, guerreiros e cativos.
As mulheres Kadiwéu produzem, igualmente, belas peças de cerâmica: vasos de diversos tamanho e formato, pratos também de diversos tamanhos e profundidade, animais, enfeites de parede, entre outras peças criativas. Decoram-nas com padrões que lhes são distintos, que segue a um repertório rico, mas fixo, de formas preenchidas com variadas cores. A matéria-prima de seu trabalho encontram-na em barreiros especiais[...].(1)
"[...]A decoração facial Kadiwéu simboliza ao mesmo tempo a hierarquia do status no interior da sociedade e a passagem da natureza para a cultura (passagem de animal a homem). Seus padrões de desenhos no rosto seriam uma representação gráfica daquilo que suas instituições poderiam ser, caso superassem uma tendência individualista.
A função dessa decoração facial coincide com a de uma máscara: esconde a individualidade atrás de um papel social – não importa que se trate de máscaras propriamente ditas ou máscaras tatuadas/pintadas. Todas as culturas que utilizam máscaras e que possuem forte estruturação hierárquica praticam a representação desdobrada."(2)


(1):http://www.pegue.com/indio/kadiweu.htm
(2):http://corpoesociedade.blogspot.com/search/label/Kadiw%C3%A9u
Música: Raíces de América - Zamba de las tolderías (http://www.youtube.com/watch?v=9kSck3ZhDtg)

sábado, 18 de abril de 2009

Metade pássaro



A mulher do fim do mundo
Dá de comer às roseiras,
Dá de beber às estátuas,
Dá de sonhar aos poetas.

A mulher do fim do mundo
Chama a luz com assobio,
Faz a virgem virar pedra,
Cura a tempestade,
Desvia o curso dos sonhos,
Escreve cartas aos rios,
Me puxa do sono eterno
Para os seus braços que cantam.

Murilo Mendes (O visionário 1941)
Anita Malfati ( A Menina de Rosa e os Elementos da Natureza - 1930)

segunda-feira, 13 de abril de 2009

De repente, 18


Lari,
O dia de hoje é especial para todas as pessoas que têm carinho por você.
Aproveite-o bem e fortaleça-se dessa energia que vêm dos que te querem bem, sejam amigos, amigas ou familiares.
Quero te parabenizar em nome do amor de mãe e filha, desse sentimento singular que nos envolve em laços tão profundos quanto eternos, que só nós sentimos, só nós acreditamos, só nós vivemos. É único na qualidade, na intensidade, no volume.
Daquele tico que era quando nasceu, hoje é uma moça.
Há muito que fala sobre assuntos diversos com tanta maturidade, responsabilidade e ética: da natureza, da escola, dos projetos todos em que se envolve, no presente ou para o futuro...
Transparente nas atitudes, me deixa segura de onde está e com quem. Para uma mãe, é muito tranquilizador, porque mãe tem disso de ficar aflita e preocupada...
Te amo.
Te abraço.
Te cheiro, porque o cheiro da filha faz bem pra mãe.
Sê feliz.


Cantiga para não morrer


Quando você for se embora,
moça branca como a neve,
me leve.

Se acaso você não possa
me carregar pela mão,
menina branca de neve,
me leve no coração.

Se no coração não possa
por acaso me levar,
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar.

E se aí também não possa
por tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento,
menina branca de neve,
me leve no esquecimento.

Poesia: Cantiga pra não morrer - Ferreira Gullar
Imagem: Fazendo Arte

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Salve, Salve, torrão andreense...


O que a história não conta:
Vim para Santo André com a família, ou melhor, a segunda parte da família porque era costume da época, o pai vir antes e instalar-se, para, só depois, voltar pro 'interior' pra buscar os demais. No nosso caso, ele trouxe consigo as três filhas mais velhas (ou elas o trouxeram, porque a iniciativa da mudança partiu delas). Só após estarem todos empregados é que ele retornou a Itápolis para nos buscar: minha mãe, meus dois irmãos, duas irmãs e eu. Assim, em meados de 1964, partimos de Itápolis para Santo André, numa longa viagem de trem, trazendo nas mãos os nossos poucos pertences. Todos juntos, reproduzíamos, como tantas outras famílias a imagem de migrantes em busca de novas oportunidades.
A primeira casa, na rua de terra, mesmo pequena, era quase vazia, com poucos móveis e sem história. Assim permaneceu durante muito tempo, com nossas roupas amontoadas nos cantos, como nós, por sermos tantos em tão pouco espaço. De dia, durante o curto período de sol, nós, os menores íamos à escola e ao retornar, nos espalhávamos pelo quintal. À tardezinha, sob o céu cinzento pela garoa fina que vinha da serra do mar, nos recolhíamos e nos juntávamos novamente aos adultos que retornavam do trabalho.
Em dias de chuva forte, minha mãe nos contava histórias da saga da sua família, pra nos acalmar e nos manter reunidos em torno dela, mulher corajosa, mas que temia relâmpagos e trovões. Nessas histórias, sabiamente, os dramas familiares eram sempre mais graves do que aquela situação de provisoriedade que estávamos vivendo. Fazia isso, talvez, para nos confortar e manter viva em si mesma a esperança na qual ela sempre se apoiara para equilibrar os sonhos e a realidade, ao ir em busca de dias melhores.
Diferente dela, calado e retraído, com uma ligação profunda com a terra, muitas vezes vi meu pai sentado no chão do outro lado da rua, em frente de nossa casa, com ar distraído e pensamento distante. Naquele tempo eu não entendia que ele já antecipava nos olhos uma grande tristeza que ia nos acontecer num futuro não muito distante daquele tempo.
Comemoramos muito quando mudamos para outra casa, na mesma rua e maior que a primeira. Aí, sim...já tinha quartos para os filhos, para as filhas, para os pais. Aos poucos fomos preenchendo os espaços com 'coisas', algumas delas nos intrigavam, ao mesmo tempo que traziam alegria e diversão: televisão, geladeira, vitrolinha portátil, máquina fotográfica e outras, nem tanto, como a panela de pressão - que nos amedrontava pelo ruído e o movimento da válvula que girava...girava... como se tivesse vida própria.
Sem nos darmos conta, fomos incorporando esse ritmo, essa rapidez, esse gira-gira, e nos adaptando aos ruídos que aos poucos invadiam a nossa rua, a vila, transformando aquele lugar mágico em cidade. Crescemos com ela. Fizemos juntos o trajeto do milagre econômico. Sobre os vestígios do rural, construímos o urbano de forma ingênua, empurrados pelas forças ocultas da história.
Seis anos de idade eu tinha quando chegamos. Meus irmãos, irmãs e os amigos que eram filhos dos poucos moradores que havia na nossa rua, fomos, como os nossos pais e os pais deles, os desbravadores daquelas terras da Villa Valparaiso. Viver ali a minha infância e adolescência me fez desenvolver uma relação de profundo carinho com essa cidade.
As ligações afetivas com a rua em que morei, os quintais onde vivi a infância, as escolas onde estudei, construiram imagens de uma arquitetura que atravessou a minha história. Essas imagens são sustentadas por fios que compõem a trama da minha vida, cujo álbum já vai meio amarelado pelo tempo, mas que ao revisitá-lo, encontro pessoas queridas que foram determinantes na minha constituição como pessoa.
No início dos anos 80, movidos por outras paixões, mudamos de lá, mas essa é(ou poderá ser) a continuação dessa história.


Hino a Santo André

Santo André livre terra querida,
Forja ardente de amor e trabalho,
Em teu solo semeias a vida,
Em teus lares há pão e agasalho

Estribilho
Salve, salve, torrão andreense
Gigantesco viveiro industrial!
Teu formoso destino pertence
Aos que lutam por um ideal!

Três figuras de heróis bandeirantes:
Isabel, o cacique e o reinol
Constituíram os troncos gigantes
Das famílias paulistas de escol.

Estribilho

Se tu foste, no início, um castigo,
Hoje és benção dos céus sobre nós.
Santo André, o teu nome bendigo,
berço e tumba de nossos avós.

Estribilho

Eia pois, a caminho da glória,
Santo André do herói quinhentista!
Tu serás para sempre na história,
marco zero da história paulista!

Estribilho


O Hino a Santo André foi oficializado pela Lei Municipal nº 541, de 16 de fevereiro de 1950, com letra do Professor José Amaral Wagner e música de Luiz Carlos da Fonseca e Castro. Ouça:
http://www.youtube.com/watch?v=T5aqw_9_Vag
Imagem: Estrada de ferro de São Paulo Railway,1930 - Museu de Santo André.

terça-feira, 7 de abril de 2009

Maringá, Maringá...


Foi numa leva que a cabocla Maringá
Ficou sendo a retirante que mais dava o que falar
E junto dela veio alguém que suplicou
Pra que nunca se esquecesse de um caboclo que ficou

Maringá, Maringá
Depois que tu partiste
Tudo aqui ficou tão triste
Que eu garrei a imaginar

Maringá, Maringá
Para haver felicidade
É preciso que a saudade
Vá bater noutro lugar

Maringá, Maringá
Volta aqui pro meu sertão
Pra de novo o coração
De um caboclo assossegar

Antigamente uma alegria sem igual
Dominava aquela gente da cidade de Pombal
Mas veio a seca, toda água foi embora
Só restando então a mágoa
Do caboclo quando chora


Linda música, composta por Joubert de Carvalho e que Paulo Santana executa na Viola Caipira. "Maringá, Maringá" deu fama à Cidade de Maringá, no Paraná, através da toponímia de 'Cidade Canção'.
Outras interpretações:
http://www.youtube.com/watch?v=EeiXdCE7_qg

sábado, 4 de abril de 2009

P&B


Você não quer?
Hiberne, então, à parte,
(No rol dos vilipêndios marquemos: mais um X).
De qualquer modo
um dia vou tomar-te sozinha
ou com a cidade de Paris.


Carta de Maiakóvski a Tatiana Iácovleva. No texto original, nao aparece aquele X, mas se Maiakóvski escrevesse em português e trabalhasse com os elementos gráficos, fônicos e semânticos de nossa língua, certamente haveria de aproveitar aquele X tão sonoro e graficamente tão bonito na página.http://www.periodicos.ufsc.br/index.php/fragmentos/index
Imagem: Sem título

quarta-feira, 1 de abril de 2009

...mais que perfeito.


Ah, quem me dera
Ir-me contigo agora
A um horizonte firme, comum
Embora amar-te
Ah, quem me dera amar-te


Sem mais ciúmes
De alguém em algum lugar
Que nem presumes
Ah, quem me dera ver-te


Sempre a meu lado
Sem precisar dizer-te
Jamais, cuidado
Ah, quem me dera ter-te


Como um lugar
Plantado num chão verde
Para eu morar-te
Ah, quem me dera ter-te



Morar-te até morrer-te



Composição: Vinicius de Moraes / Jards Macalé
Imagem: Losango - Vitor Nunes (
http://www.1000imagens.com/foto.asp?idautor=54&idfoto=45&t=&g=&p=)