domingo, 30 de março de 2008

Uma valsa.

Um filme: um homem, uma mulher, um romance, uma música... 'Antes do pôr-do-sol' tem tudo isso e mais. Um filme delicioso sobre duas pessoas que têm muito a dizer uma pra outra.
O ponto alto fica por conta da doce interpretação da atriz Julie Delpy.
A waltz for a night
Julie Delpy
Let me sing you a waltz
Out of nowhere, out of my thoughts
Let me sing you a waltz
About this one night stand
You were for me that night
Everything I always dreamt of in life
But now you're gone
You are far gone
All the way to your island of rain
It was for you just a one night thing
But you were much more to me
Just so you know
I hear rumors about you
About all the bad things you do
But when we were together alone
You didn't seem like a player at all I don't care what they say
I know what you meant for me that day
I just wanted another try
I just wanted another night
Even if it doesn't seem quite right
You meant for me much more
Than anyone I've met before
One single night with you little Jesse
Is worth a thousand with anybody
I have no bitterness, my sweet
I'll never forget this one night thing
Even tomorrow, another arms
My heart will stay yours until I die
Let me sing you a waltz
Out of nowhere, out of my blues
Let me sing you a waltz
About this lovely one night stand

sábado, 29 de março de 2008

Uma jóia preservada.


Já há algum tempo, um amigo me enviou um material sobre as bibliotecas do mundo (libraries in the world), dentre elas, havia uma especial que me chamou a atenção: a histórica Biblioteca Joanina na Universidade de Coimbra.
Uma visita a esse lugar passou a fazer parte da minha 'lista das dez' sobre as dez coisas que pretendo realizar. Não vou descrever a emoção, mas recomendo a visita pois é uma viagem no tempo através de imagens que nos colocam muitas questões, pela atmosfera histórico-misteriosa e até mitológica que nos envolve ao adentrarmos naquele espaço.

quarta-feira, 26 de março de 2008

Fado (António Zambujo - ao vivo)

Sr. Vinho - Lisboa


Na minha casa ouvíamos muita música. Sempre havia um rádio tocando, uma vitrola rodando, mesmo na rotação 78, com discos pesados e antigos ou os mais leves como os LP's (long play), ou ainda os CD simples e duplos (compact disc). Quando criança, as escolhas eram feitas pelo meu pai; de gosto eclético, ia das 'bandas e dobrados' um gênero quase extinto, às marchinhas de carnaval, às músicas de raiz, como Zé Fortuna e Pitangueira, passando pelas românticas nas vozes masculinas de Nelson Gonçalves, Vicente Celestino, Ataulfo Alves e femininas como Araci de Almeida e Dalva de Oliveira, Inezita Barroso, entre outras. Eram como suaves arabescos invisíveis decorando de forma delicada a nossa casa simples. É certo que traziam uma dose de nostalgia, emocionando meu pai que, tocado pelas músicas, poesias e pelas vozes das interpretações fortes desses cantores e cantoras, muitas vezes nós o víamos às lágrimas. Assim, convivi e cresci com essa diversidade musical, com a predominância na música romântica. Quando conheci o fado português já estava bem sensibilizada para sorver totalmente este gênero. Herança de meu pai, a paixão pela música, sobretudo o fado, eu trago comigo no meu baú de memórias. Sou uma apaixonada. Assim, estar numa casa de fado foi um privilégio, um pequeno 'luxo' de uma emoção singular. Quis mesmo, de forma egoísta, capturar uma fração daquele momento pra guardar e trazer comigo. É esse fragmento, através da imagem, que compartilho aqui hoje.
O fado é o FADO: "O fado é, por excelência, a canção de Lisboa. Produto de um sentimento próprio, de uma alma que não se explica mas que se sente, o fado é ainda hoje o produto mais nobre e genuíno da cultura popular portuguesa. E por ser tão próprio, é sempre uma surpresa para os turistas que visitam Lisboa. O fado é o fado e não há divisões a fazer. É a música que vem de dentro da alma portuguesa." (http://www.visitlisboa.com/fado_detalhe.asp?id=169)

terça-feira, 25 de março de 2008

Reino

Reino de medusas e água lisa

Reino de silêncio luz e pedra

Habitação das formas espantosas

Coluna de sal e círculo de luz

Medida da balança misteriosa.

(Sophia de Mello B. Andresen)

Pequenos sonhos...


Conhecer o Oceanário de Lisboa era um antigo sonho.

Agora que já lá fui, tento dizer algo sobre ele:

é como uma tela

composto por formas, cores, movimentos

é ecológico

é santuário

é quase um templo.


Mas quando lá se está,

ele é apenas

surreal

E poético.

"Quando eu morrer volto pra buscar
os instantes que não vivi junto do mar."

Sophia de Mello B. Andresen

sábado, 8 de março de 2008

Há quem conteste tamanha doçura?

Receita de mulher


As muito feias que me perdoem
Mas beleza é fundamental. É preciso
Que haja qualquer coisa de flor em tudo isso
Qualquer coisa de dança, qualquer coisa de haute couture
Em tudo isso (ou então
Que a mulher se socialize elegantemente em azul, como na República Popular Chinesa).
Não há meio-termo possível. É preciso
Que tudo isso seja belo. É preciso que súbito
Tenha-se a impressão de ver uma garça apenas pousada e que um rosto
Adquira de vez em quando essa cor só encontrável no terceiro minuto da aurora.
É preciso que tudo isso seja sem ser, mas que se reflita e desabroche
No olhar dos homens. É preciso, é absolutamente preciso
Que seja tudo belo e inesperado. É preciso que umas pálpebras cerradas
Lembrem um verso de Éluard e que se acaricie nuns braços
Alguma coisa além da carne: que se os toque
Como o âmbar de uma tarde. Ah, deixai-me dizer-vos
Que é preciso que a mulher que ali está como a corola ante o pássaro
Seja bela ou tenha pelo menos um rosto que lembre um templo e
Seja leve como um resto de nuvem: mas que seja uma nuvem
Com olhos e nádegas. Nádegas é importantíssimo. Olhos, então
Nem se fala, que olhem com certa maldade inocente. Uma boca
Fresca (nunca úmida!) é também de extrema pertinência.
É preciso que as extremidades sejam magras; que uns ossos
Despontem, sobretudo a rótula no cruzar as pernas, e as pontas pélvicas
No enlaçar de uma cintura semovente.
Gravíssimo é porém o problema das saboneteiras: uma mulher sem saboneteiras
É como um rio sem pontes. Indispensável
Que haja uma hipótese de barriguinha, e em seguida
A mulher se alteia em cálice, e que seus seios
Sejam uma expressão greco-romana, mais que gótica ou barroca
E possam iluminar o escuro com uma capacidade mínima de cinco velas.
Sobremodo pertinaz é estarem a caveira e a coluna vertebal
Levemente à mostra; e que exista um grande latifúndio dorsal!
Os membros que terminem como hastes, mas bem haja um certo volume de coxas
E que elas sejam lisas, lisas como a pétala e cobertas de suavíssima penugem
No entanto sensível à carícia em sentido contrário.
É aconselhável na axila uma doce relva com aroma próprio
Apenas sensível (um mínimo de produtos farmacêuticos!)
Preferíveis sem dúvida os pescoços longos
De forma que a cabeça dê por vezes a impressão
De nada ter a ver com o corpo, e a mulher não lembre
Flores sem mistério. Pés e mãos devem conter elementos góticos
Discretos. A pele deve ser fresca nas mãos, nos braços, no dorso e na face
Mas que as concavidades e reentrâncias tenham uma temperatura nunca inferior
A 37º centígrados, podendo eventualmente provocar queimaduras
Do primeiro grau. Os olhos, que sejam de preferência grandes
E de rotação pelo menos tão lenta quanto a da terra; e
Que se coloquem sempre para lá de um invisível muro de paixão
Que é preciso ultrapassar. Que a mulher seja em princípio alta
Ou, caso baixa, que tenha a atitude mental dos altos píncaros.
Ah, que a mulher dê sempre a impressão de que se se fechar os olhos
Ao abri-los ela não mais estará presente
Com seu sorriso e suas tramas. Que ela surja, não venha; parta, não vá
E que possua uma certa capacidade de emudecer subitamente e nos fazer beber
O fel da dúvida. Oh, sobretudo
Que ela não perca nunca, não importa em que mundo
Não importa em que circunstâncias, a sua infinita volubilidade
De pássaro; e que acariciada no fundo de si mesma
Transforme-se em fera sem perder sua graça de ave; e que exale sempre
O impossível perfume; e destile sempre
O embriagante mel; e cante sempre o inaudível canto
Da sua combustão; e não deixe de ser nunca a eterna dançarina
Do efêmero; e em sua incalculável imperfeição
Constitua a coisa mais bela e mais perfeita de toda a criação inumerável.


Vinícius de Moraes in Novos Poemas (II)in Poesia completa e prosa

sexta-feira, 7 de março de 2008

Uma lição de menino.

Meu filho me contava que hoje, enquanto iam pra escola, faziam uma brincadeira de achar peruas 'kombi' (talvez tenham eleito a Kombi por ser um carro quase raro, ou menos comum, depois de ter sido superada pelas vans no transporte escolar, mas isso nem perguntei).
A brincadeira consiste no seguinte: de um a vinte, vence quem chegar aos vinte primeiro, apontando as kombis que vai localizando no percurso até chegar à escola. Se apontar a mesma duas vezes, perde um ponto. Meu filho, com 12 anos já se percebe desatento para as kombis e me diz: - Mãe, você não imagina quantas kombis a gente viu!! Um viu 17 e o outro 19. Considerando que ambos não poderiam contar duas vezes a mesma, num percurso de 5 km, é um universo a ser considerado: 36 kombis. Surpresas à parte, meninos têm essa capacidade lúdica de transformar em diversão o tédio, assim, lançaram mão dessa, mas poderiam ter inventado qualquer outra brincadeira para tornar a curta viagem, menor ainda e de forma divertida, aproveitar a companhia dos colegas enquanto não adentrassem no sisudo espaço escolar.
Eu, que acompanhava a empolgação do meu filho ao me contar sobre o 'jogo', fui pensando então, em 'por que será que esse menino, de 12 anos, já se surpreende ao ver as kombis somente em casos em que ela tenha que se destacar dos demais veículos, como era a situação proposta pelo jogo? E lancei a pergunta: Por que você acha que, em uma situação comum, que não essa do jogo, a gente passa pelas kombis e não as percebe? E ele: - É o 'piloto-automático', como no filme CLICK. Eu fiz também uma comparação, quando da minha gravidez: nunca tinha visto tanta mulher grávida como naquela época; nunca as imagens de bebês, as reportagens sobre gravidez e maternidade, se mostravam tão evidentes pra mim.
Conclusão: devemos nos sensibilizar e enfatizar algumas coisas simples e comuns do cotidiano, para retomarmos as rédeas do nosso caminho. Nas coisas simples está a possibilidade de recuperarmos a visibilidade no dia-a-dia e permitir que elas tenham vez em nosso olhar viciado. Se não for assim, cada vez mais cedo delegaremos a condução da nossa vida ao piloto-automático, como no filme CLICK.

domingo, 2 de março de 2008

Arte para evocar III


A atividade de acolhimento ocorrida na penúltima reunião na escola, foi realizado pela professora Stela de artes. A proposta inicial de apreciação de algumas obras de Portinari, teve o objetivo de nos sensibilizar para que, através das mesmas, observássemos os elementos que as compunham e em uma leitura mais apurada, revelássemos a interpretação que fazíamos de cada uma. Essas obras, especialmente escolhidas, tinham como elemento comum, um baú.

Em seguida, em uma analogia entre o baú das telas de Portinari com o nosso 'baú', devíamos representar através de colagem o que continha nele que nos marcou na nossa constituição até então.
Revisitei, então, o meu baú, cuidadosamente colocado em algum lugar em que a minha história se apropriou e passou a chamá-lo de passado.
Remexendo nos 'guardados' vi meu próprio movimento como professora e, em especial, na estratégia da professora Stela, as experiências vividas como professora de Artes. Revi-me como alguém que sempre buscou na arte o caminho para 'evocar' (gosto dessa palavra e vou me servir dela muitas vezes) e deflagrar sentidos nas crianças e adolescentes.
Evocar sentimentos, evocar memórias, evocar vivências, evocar conflitos, evocar alegrias, evocar dilemas... Como os sujeitos se percebem e como percebem o mundo; traduzir para compartilhar e poder atribuir novos sentidos às novas maneiras de relações que ali se estabelecia.
Meu baú revelou-me nas diferentes manifestações dos alunos. Agora desfilam na minha memória, compondo um imenso portfólio de imagens dinâmicas, vivas, trazendo a presença de rostos entre desenhos, cartazes, figurinos, mais rostos, máscaras, crianças, vozes, sons... as músicas, as danças, entrelaçando diferentes linguagens exploradas através das artes visuais, da música, da poesia, da dança ou teatro.

No movimento de me rever professora, alternei-me como 'aluna', que é a condição que mais gosto de estar. Rever-me como aluna, me reportou ao meu tempo de aluna de ginásio, nos idos dos anos 70, onde o sistema educacional, velado pela ditadura, tinha uma estrutura fixa e a aula de arte era 'não-aula'. Com a negação desse espaço, era para 'refrescar' as aulas mais cansativas, assim, esse recheio tinha o caráter de artesanato ou artes 'manuais' julgando que a mente estava dissociada das mãos: crochê, bordado, pintura em tecido para as meninas e artesanato em madeira, feito em oficina, para os meninos.

Assim, rever-me como 'não aluna' de artes, foi definitivo na minha opção por ser professora de artes: eu tinha claro que tipo de professora eu NÃO queria ser, o que me mobilizou por certo, a percorrer novos caminhos na minha trajetória de professora construtura de meu percurso.

Feita essa rápida passagem, volto a me sentir aluna presente, aluna do dia-a-dia. Todavia, percebo que as mudanças nas estratégias não são por acaso: elas fazem parte de novos pressupostos sobre como pensamos a escola, a sociedade, a criança, o adolescente e a relação de tudo isso com o que chamamos formalmente de 'currículo'.

A Arte mudou. Nós mudamos. A escola (lentamente) está mudando.